segunda-feira, 29 de maio de 2017

As duas Lava a Jato e o tempo do Brasil

Sanguessugado do GGN

Fernando Horta

Desde antes da morte do ministro Teori Zavascki (em tempo, já investigaram?) era perceptível que existiam, ao menos, duas Lava a Jato. A operação capitaneada (sic) por Moro e os procuradores da “República de Curitiba” era uma operação. Parcial, não-constitucional, política e com foco exclusivo no ataque ao governo Dilma e em Lula. O ministro Teori deixou claro, em diversos momentos, seu desgosto com a forma com que esta operação era levada. Após sua morte, as manifestações do ex-ministro da Justiça, Eugênio Aragão, deixavam transparecer uma discordância ainda maior de Teori com tudo o que se passava. Talvez o ministro, sendo mais cuidadoso e silente, do que o juiz-justiceiro de Curitiba, não retrucasse da mesma maneira (na frente de microfones e câmeras), mas Teori deu os acordes iniciais para a outra Lava a Jato. Aquela centrada no STF e levada a cabo por um MP e uma PF muito mais imparciais e profissionais.

E foi esta segunda Lava a Jato que desmontou o governo Temer. Coisa que tinha ficado muito claro (será que para Teori também?) que Moro não faria. A desculpa do privilégio de foro não deve ser levada em conta. Dilma tinha foro privilegiado e isto não impediu que Moro criminosamente agisse de forma política vazando as conversas da presidenta em rede nacional. O que mantinha Moro tão zeloso quanto a Temer era outra coisa. Esta percepção e as fotos do juiz com figuras da oposição e mesmo com o presidente acendiam a luz vermelha na esquerda. Moro, como Gilmar Mendes, não se preocupa em disfarçar suas posições políticas, preocupam-se em negar o óbvio. Teori sabia que se a quisesse uma Lava a Jato ética e juridicamente correta, não poderia passar por Curitiba.

A morte do ministro Teori (em tempo, já investigaram?), revelava uma estranha situação. O filho do ministro confessava que o pai estava “muito preocupado” pelo Brasil em 2017. Que informações teria o ministro? As operações deflagradas recentemente que atingiram em cheio o PSDB e o golpista-presidente eram do conhecimento já de Teori? Creio que sim. Creio que ali começaram, com a imparcialidade, o profissionalismo e a discrição que todos afirmam caracterizavam o comportamento de Teori Zavascki. Ali tinha nascida a segunda Lava a Jato.

Enquanto a Lava a Jato de Curitiba grampeava escritórios inteiros, presidentes, ex-presidentes, seus filhos, netos, amigos por quase dois anos para achar alguns palavrões, a operação sediada em Brasília grampeava menos pessoas por menos tempo e obtinha explosivas informações. Enquanto a de Curitiba transformava qualquer declaração em política baixa despejada para a grande mídia, a de Brasília não vazava. Nem Gilmar Mendes (será que foi gravado?) sabia de algo. A diferença de profissionalismo, acuidade e eficácia são gritantes. Também na hora de tornar públicos os resultados as diferenças se mantinham. Como Curitiba tinha lançado moda fazendo da publicidade sua principal força jurídica, Fachin (herdeiro dos processos de Teori) fez o mesmo, só que sem a antiga seletividade para blogs e jornalistas de direita.

É questionável que o STF vaze? É, mas a verdade é que se o próprio STF não questionou o vazamento feito com Dilma, não há moral agora para questionar qualquer outro. Ou a “suruba é pra todo mundo” ou não é para ninguém, como lembrou o senador-símbolo do governo Temer, Romero Jucá. O governo Temer tenta recolher seus cacos e se sustentar. Conta com pouco apoio, mas uma valorosa inércia da esquerda brasileira que, apesar de não ter sido golpeada nos últimos meses, ainda está tonta. O problema é que não há vácuo de poder. Enquanto se discute quem vai assumir, quais eleições, candidatos, o tempo e etc. Alguém está exercendo o poder de fato. Creio que não é mais Temer, sequer como preposto.

O tempo dado a Temer, portanto, é um tempo dado a este poder que não temos ciência de quem o exerce. É um tempo dado contra o país. Todo o tempo que Temer levar para cair, somando com o tempo de transição é um tempo que o brasileiro perde emprego, o empresário deixa de lucrar, quem tem fome segue com fome e tudo fica num transe inativo. Não vejo, se não por má fé, como as cabeças pensantes deste país – sejam de direita, de esquerda, de frente ou de ré – estão se permitindo este transe. A economia do país agoniza e os esforços desonestos de Temer para produzir índices (mudando metodologia, alterando prazos e etc.) já foram denunciados por muitos, incluindo o presidente do IBGE.

Se o país todo perde com esta demora, quem está ganhando? Quais os grupos que fazem da sangria de Michel Temer, a depressão de Aécio algo que os beneficie? Já não era hora da esquerda ter se recuperado e voltado para a disputa? O brasileiro já não percebeu que tudo o que está acontecendo, não importa quem se beneficie, vai piorar a sua já complicada situação?

Estão esperando efetivamente o quê, para por definitivamente a termo o governo Temer? Curitiba está desnorteada pela demonstração efetiva de como se faz uma operação policial e jurídica dada por Brasília. O PSDB acabou com a hipocrisia do discurso da superioridade, com todo o partido envolvido em esquemas e canalhices. Os asseclas de Temer nem conversam mais com medo de estarem sendo gravados. No STF o receio é o mesmo. A economia definha, o trabalho some e todos os indicativos mostram mais um período de seis meses (no mínimo) de recessão. Se antes não interessava se Dilma era culpada ou inocente, e o argumento do “conjunto da obra” aparecia o tempo todo, o que mudou agora?


Esta inércia VAI nos custar muito caro. Política, social e economicamente. Não há nenhum benefício em deixar-se um paciente perdendo sangue enquanto se discute qual doença e qual cura. Dentro do protocolo de emergência, a sutura tem precedência. A ministra Carmem Lúcia deveria saber disto.

domingo, 28 de maio de 2017

A direita é demofóbica

Gilson Sampaio

Pra elite financeira não importa 'quem', importa apenas que o desmonte do Estado tenha problema de continuidade. 

São parte dos 71 mil brasileiros que pagam apenas 6,5% de impostos sobre lucros na ciranda financeira, enquanto o assalariado ou empregado morre com 27% para o IR.  

Não são apenas a Odebrecht e a JBS que compram deputados, embora muitos saibam, pouco se alardeia sobre essa obviedade. 

Na Casa que seria do povo, muito pouco tem de representação desse povo tão alienado e manipulado por uma mídia tão corrupta quanto o empresariado. 

A direita é demofóbica.

Janio de Freitas: a 'solução' oculta dos empresários

fôia ditabranda


Janio de Freitas

Manifestos de associações nos jornais omitem 'a solução' dos empresários

Do tumulto em Brasília para cá, a crise pareceu acalmar-se um pouco. Mas piorou. Inclusive nas alegadas ações por uma saída.

Os manifestos que as associações empresariais estão publicando, em páginas inteiras dos jornais, correspondem à pressão combinada que o empresariado forte faz sobre o Congresso e parte do Judiciário. Mas as publicidades omitem "a solução" exposta por empresários nos diálogos políticos.

Tasso Jereissati e Fernando Henrique, embora muito citados em imprensa/TV, são alternativas, não preferências. A prioridade é a permanência de Michel Temer com Henrique Meirelles. O vínculo partidário muito rígido de Jereissati e Fernando Henrique representa, para os empresários entregues à ação política, o risco de que cedam à perspectiva das eleições em 2018. Seriam ambos propensos a buscar atenuantes à insatisfação do eleitorado trabalhador, mais do que a fazer as reformas trabalhista e da Previdência nos termos desejados pelo empresariado.

Os manifestos ocupam-se da má situação do país e da necessidade de superá-la. Apesar disso, o que os textos exalam é o propósito de obter aquelas reformas. Tudo é dito em função delas. E, na prática, a permanência de Michel Temer e seu grupo é o oposto do "entendimento necessário" que falam os textos. O que é crise para dezenas de milhões é visto por outros como oportunidade.

Sumiram as citações à exigência, para candidaturas a presidente, de filiação partidária seis meses antes da eleição. Com isso, Nelson Jobim torna-se presença constante no noticiário, em justa retribuição às suas relações jornalísticas. Mas as manobras que burlaram a concorrência para construção da base naval e produtora de submarinos no Rio, entregando-a à Odebrecht como se fora empresa estrangeira, podem sair do silêncio a qualquer hora. Por envolver a Marinha, a Lava Jato finge que o assunto não existe -como fazia com a corrupção de gente do PSDB. Mas nem tudo pode ser sempre controlado por lá- como se viu com a corrupção de gente do PSDB.

Quando ministro da Defesa, Jobim esteve, com Roberto Mangabeira Unger, no centro das negociações de investimentos militares altíssimos (e, em grande parte, duvidosos como estratégia). Dado como proponente dos caças franceses e, depois, dos americanos, Jobim não os fez vencedores. A FAB conseguiu impor sua preferência pelo acordo com os suecos. Mas a contratação e suas piruetas para a base e os submarinos, inclusive o nuclear, efetivaram-se. Com ausência de explicações muito além da necessária ao aspecto militar. Jobim já teve a honra de ao menos uma citação na Lava Jato. Se candidato, à indireta ou à direta, pode esperar mais, com intenções decisivas.

Mais político do que empresário, e empresário mais rico do que a grande maioria dos empresários brasileiros, Jereissati não está imune a cobranças variadas. Lá pelos anos 1990, assinei textos na Folha sobre um sistema de sonegação de impostos no Ceará. Numerosas empresas usavam uma espécie de central contábil, na qual notas fiscais, frias ou não, e outros documentos entrelaçavam-se para a mágica de reduzir ou evaporar impostos. Empresas de Tasso Jereissati eram parte importante do sistema. Como nem o seu prestígio de governador conseguia parar as investigações da Superintendência da Polícia Federal no Estado, Jereissati obteve de Romeu Tuma, então diretor da PF, a substituição do delegado-superintendente. Pronto. Mas o caso pode voltar à superfície.

Apesar de pouco citados, e de só contarem com trabalho de apoiadores discretos, dois nomes desfrutam de muito mais prestígio público do que os políticos mais citados para substituir Temer: Ayres Britto, ex-ministro do Supremo, com ampla aceitação entre os menos desinformados, e alto conceito ético e cultural; e o também ex-ministro Joaquim Barbosa, com ampla aceitação pública, mas temido pelos políticos. Nessa linhagem, Cármen Lúcia é o óbvio desde o primeiro momento -exceto na Câmara e no Senado.

*

Brasileirinhas:

1) Aécio Neves gastou horas de explicações, mas sem explicar por que os R$ 2 milhões tomados de Joesley Batista, "para pagar advogado", foram parar com o filho do senador Zezé Perrella, e não com sua defesa.

2) Raul Jungmann deu como mal-entendido sua afirmação de que o Exército foi chamado pelo deputado Rodrigo Maia, e não por Temer. Bem entendido, o Exército vai para as ruas sem que o ministro da Defesa precise saber sequer quem o pediu.


3) Mais um massacre, dez mortos, feito pela PM do Pará. A polícia do Pará precisa ser presa.

“Recebeu e jogou mil no bolso”. Aldir Blanc, cortante

Sanguessugado do Tijolaço

Fernando Brito

É ou não é a cara do presigárgula?

aldir

A crônica de Aldir Blanc, mais carioca que a estátua do Cristo Redentor, hoje, n’O Globo:

Para caracterizar o samarcal do desgoverno Temeroso, vou citar o guerreiro do Império, Winston Churchill, em suas “Memórias da Segunda Guerra Mundial”. O trecho está na página 112 do primeiro volume, na edição da Nova Fronteira, e refere-se a Mr. Baldwin, uma espécie de Treme-Temer inglês: “E assim vai ele num estranho paradoxo, decidido só a não decidir, resolvido só a não resolver, firme na deriva, sólido na fluidez, onipotente na impotência”.

É ou não é a cara do presigárgula? Imaginem aquele sorriso falso de Mono Esburacado, ajeitando o nó da gravata deformada pelo barrigão. Ele desliza feito réptil em direção à tribuna para não falar a verdade e, seguindo Churchill, ser coerente na incoerência, forte na tibieza, sólido na flatulência… Em suma: o cara passará à História como “ele recebeu a propina, separou mil e jogou no bolso”.

Homem da Zona Norte, conheci malandros de palavra, que tinham elevado sentido de honra, como o saudoso Maneca, cuja promessa era sagrada. Pensem na figura patética de Dá-o-pé-Loures, mais um caso de “jogou no bolso”. Devolveu a tal mochila faltando 35 mil. Depois, “achou” a grana e devolveu. Outro descalabro: precisamos de alguém para nos defender do minidef, membro caído do PPS (Partido Paleolítico Senil), aquela agremiação cujo dono é Robertov, que já abandonou o navio. A presença do vomitivo político na Defesa não faz o menor sentido. A casa também caiu sobre Mineirinho. Entregou o passaporte e aguarda a prisão. Já a irmã, usada e abusada, está presa. É preciso ressaltar que Mineirinho continua impune em espancamento de mulheres e blindado no tenebroso escândalo de Furnas (e aí, juízes do Supremo? Não vão abrir esse cofre de Pandora?). É preciso investigar também o helicoca, a Samarco (19 homicídios culposos, um rio morto, a maior catástrofe ambiental do Brasil, estragos que chegam ao litoral da Bahia). Dá nojo a forma como homens (?) vis exploram irmãs que os idolatram.

O desespero Temeroso pode ser avaliado pelo grito de help às Forças Armadas, uma estupidez, com, é claro, a cumplicidade do minidef.

A ONG Alerta Brasil e o Projeto #Colabora denunciam que, desde que Temeroso abundou-se no trono presidencial, um direito foi perdido por dia! Esse é o líder “jogou mil no bolso”.

Como cravou a jornalista Dorrit Harazim, o presipodre poderia ter dito aos animais proteicos “Fora daqui”.

Vi no canal Bloomberg a seguinte pérola: “O mercado exige a continuação das reformas”. Qual mercado? Aquele que quebrou o mundo em Wall Street na megafraude de 07/08, ninguém preso? O da Fiesp? O de Pedro Parente Deles, onde o Brasil paga caro para explorar suas próprias riquezas?! O da “reconstrução” da Halliburton no Iraque? Vão se fifar!

Toda solidariedade ao repórter fotográfico André Coelho, chutado por um PM em Brasília. Quando se homenageia o Capitão Sampaio por esfacelar o rosto de um jovem, o resultado é esse.


Não se derruba um governo sujo com rosas.

sábado, 27 de maio de 2017

Ordem na suruba pra continuar a suruba: O “acordão” pós-Temer costurado em Brasília


André Barrocal

Degola no TSE e Rodrigo Maia eleito por via indireta. Ruas, reformas e prisão de Temer bagunçam o jogo

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Acordão para substituir Temer ganha forma e favorito é o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Michel Temer diz e repete que não renunciará e até convocou as baionetas para enfrentar protestos. As negociações políticas para tirá-lo do cargo e providenciar um sucessor estão a mil, no entanto. Até já desponta a solução com mais chance de vingar. Mas “as ruas” podem bagunçar o “acordão”. A Operação Lava Jato e as reformas impopulares propostas pelo presidente, também.

Pelo visto nos bastidores do Congresso nos últimos dias, o provável caminho para trocar Temer é cassá-lo na Justiça Eleitoral na ação movida contra a chapa vitoriosa na eleição de 2014. E depois substituí-lo por alguém escolhido apenas pelos parlamentares para governar até dezembro de 2018. O favorito para a missão é o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Essa solução agrada uma fatia razoável da base governista, majoritária na Câmara, onde o jogo será decidido. PSDB e DEM topam. O “Centrão” simpatiza. Se o próximo presidente for um nome da Câmara, e não de fora, tudo certo. Por quê? “Para continuar o serviço do Michel”, diz um parlamentar. Tradução: tentar enterrar a Lava Jato.

O presidente tornou-se alvo de um inquérito criminal pela suspeita de tramar contra a Lava Jato, uma forma de obstrução da Justiça, segundo o procurador-geral, Rodrigo Janot. Seu parceiro de inquérito Aécio Neves (PSDB) foi gravado a dizer que sua vida tinha virado um "inferno" de tanto trabalhar para salvar a pele de políticos enrascados. Salvar com uma lei de anistia total do crime de caixa 2, lei que precisaria da assinatura de Temer para virar realidade.

Depor Temer via Tribunal Superior Eleitoral (TSE), diz um deputado tucano participante de conversas sobre o futuro, é uma saída “mais confortável” para o presidente. Talvez o livre da pecha de “corrupto”. Além disso, o julgamento, marcado para 6 de junho, por coincidência o “Dia D” da Segunda Guerra Mundial, é um processo mais veloz do que um impeachment.

Para essa solução ser de fato mais rápida, será preciso convencer Temer a aceitar o resultado do julgamento. Ele não poderia acionar, para que retardem a sentença, os dois ministros do TSE que acaba de nomear. Nem recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF). Topará? Por ora, é difícil.

“Não adianta fazer lista de candidato a presidente. Não adianta, porque vai haver resistência legal e constitucional. Vai haver!”, bradou da tribuna o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), logo após Brasília virar um campo de batalha pelo “Fora Temer” na quarta-feira 24.

Segundo um experiente deputado do PMDB, Jucá e outros dois íntimos conselheiros do presidente, os ministros Eliseu Padilha (Casa Civil) e Moreira Franco (Secretaria Geral da Presidência), acreditam haver só um lugar pior para Temer do que dentro do governo: fora.

Não é difícil imaginar a razão. Fora, o peemedebista corre o sério risco de ir em cana. Escapar da prisão é, tudo indica, a garantia que Temer exige neste momento para aceitar deixar o Palácio do Planalto. Uma garantia que não se sabe se passaria pelo crivo do fator “Lava Jato”.

O inquérito aberto contra Temer no STF por organização criminosa, obstrução à Justiça e corrupção tem mais dois personagens, Aécio e o peemedebista Rodrigo Rocha Loures. O procurador-geral requereu a prisão de Aécio e Loures. Supõe-se que não agiu igual com Temer apenas porque o artigo 86 da Constituição impede que, em casos de crime comum, o presidente seja preso antes de condenado. Mas se o peemedebista deixar o poder…

No despacho em que liberou a instauração do inquérito contra a patota, o juiz-relator do processo no STF, Edson Fachin, escreveu que a prisão de Aécio e Loures era “imprescindível”. Evitou decretá-la, contudo, por ser uma batata quentíssima, com dois parlamentares engolfados, um deles ex-candidato a presidente. Empurrou o pepino para o plenário da corte, julgamento ainda sem data.

Do STF, já emana uma solução mirabolante para salvar Temer do xilindró, conforme a Folha de S. Paulo da sexta-feira 26. O próximo presidente poderia dar “indulto” ao peemedebista. Rodrigo Maia certamente daria, se o Supremo respaldá-lo. É “temerista” e genro de Moreira Franco, o secretário-geral da Presidência.

Eliseu Padilha (Casa Civil) e Moreira Franco (Secretaria Geral da Presidência), acreditam haver só um lugar pior para Temer do que dentro do governo: fora. (Agência Brasil)

A solução “Maia presidente” via “acordão” terá oposição da Lava Jato, a julgar por comentários feitos na terça-feira 23 pelo chefe da Força-Tarefa de Curitiba, Deltan Dallagnol. “Se cair Temer, vão assumir outras pessoas que estão sendo investigadas por corrupção”, disse o procurador. Soou uma ameaça do tipo “não façam isso”.
Maia, o “Botafogo” segundo delatores da Odebrecht, é alvo de um inquérito para investigar por que ele e o pai, o ex-prefeito do Rio Cesar Maia, receberam 950 mil reais da seção de propina da empreiteira em 2008 e 2010. Caixa 2? Ou corrupção, uma grana dada em troca de favores políticos?

De qualquer forma, a negociação de sua “candidatura” em uma eleição indireta está em curso. Na terça-feira 23, o prefeito de Salvador, Antonio Carlos Magalhães Neto, uma das estrelas do DEM, esteve em Brasília para conversar a respeito.

Para atrair a bancada “paulista” do colégio eleitoral, a maior, Maia resolveu botar em votação no plenário uma lei para legalizar de vez todos os incentivos fiscais dados por estados nos últimos tempos. O texto que acaba com a “guerra fiscal” está do jeito que São Paulo queria. Nenhum outro estado apoiou-o no chamado Confaz, reunião de secretários estaduais de Fazenda.

Mas, no quintal do DEM, Maia tem um adversário na ideia de emplacar “indiretas”. Logo após os protestos em Brasília na quarta-feira 24, o líder do partido no Senado, Ronaldo Caiado (GO), subiu à tribuna para defender Diretas. “Eu não tenho medo das ruas, eu não acredito em colégio eleitoral.”

Na Câmara, o deputado Felipe Maia (DEM-RN), filho do presidente do DEM, José Agripino (RN), comentou com o deputado Marcus Pestana (PSDB-MG), conforme testemunhou CartaCapital na terça-feira 23: se o clamor por Diretas crescer nas ruas, “não teremos como segurar”.

Até agora, a reivindicação pelo “Fora Temer” e por eleições diretas limita-se a grupos de esquerda, que foram contra o impeachment, observa um dirigente do PMDB. Grupos direitistas, como MBL e Vem Pra Rua, ensaiaram entrar no embalo, mas desistiram, por acharem que ajudariam Lula e o PT.

O PT é peça importante do “acordão”. Parte da legenda aceita conversar sobre eleição indireta, mas outra, de jeito nenhum. “Esse Congresso desmoralizado não pode eleger o próximo presidente. Seria a eleição mais corrupta da história. Se venderam o voto para a reeleição do Fernando Henrique, para votar MPs, para o impeachment, imagina agora, para elegerem o presidente?”, diz o deputado petista Henrique Fontana (RS).

O que unifica o PT é a rejeição às reformas trabalhista e da Previdência propostas por Temer. Para enterrá-las, há petista convencido de que o melhor é deixar o presidente “sangrar” um tempo, antes de cair. Com ele enfraquecido, as reformas parariam e seria possível tentar ampliar na sociedade o apoio às Diretas. Se ele sair logo do cargo, o escolhido pelas forças conservadoras governistas poderia retomar rapidamente a votação das reformas.

Na esquerda, já há quem fale abertamente em uma espécie de permuta com os governistas para o pós-Temer. Aceitar uma eleição indireta agora em troca do sepultamento das reformas, as quais poderiam ser resgatadas pelo presidente eleito em 2018, caso seja essa a vontade expressa nas urnas. Foi o que defendeu o governador do Maranhão, Flavio Dino, do PCdoB, em entrevista à BBC Brasil na quinta-feira 25.

Uma visão parecida com a do líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL), para quem o ministro da  Fazenda, Henrique Meirelles, um ardente defensor das reformas impopulares, deveria ter sido demitido após um desvario tecnocrata.

Em teleconferência com uma turma do JP Morgan na segunda-feira 22, Meirelles comentou que as reformas também seguem, não importa quem esteja no leme do País. Logo após o estouro do escândalo Temer-JBS, Meirelles já tinha “avisado” intramuros que continuaria no cargo mesmo com outro presidente.


Falta combinar com o próximo, caso vingue o “acordão”.