domingo, 15 de janeiro de 2017

Barbárie 7 x 1 Expectativa de Civilização

feicibuqui Alex Scherer

 Carlos Alberto Ferreira Martins

Desde o início do século XX, compreender o Brasil, e em particular a relação entre modernidade e atraso, tem sido o desafio de intelectuais, artistas e pensadores.

Inicialmente essa tensão aparecia como um embate entre capitalismo e resquícios de uma sociedade feudal. Chegava-se a afirmar a existência de dois Brasis, um capitalista, urbano, industrial, cosmopolita, moderno e outro patrimonialista, rural, agrário, arcaico.

Mais tarde o tema assumiu diferentes denominações mas cresceu a convicção de que não se tratava de uma oposição simples mas de um processo em que um polo alimenta o outro: a modernidade gera atraso; a produção de riqueza gera pobreza; o urbano reconfigura o rural; a cidade dos ricos gera a favela.

No final dos anos sessenta o tropicalismo chocou ao afirmar que o Brasil era, ao mesmo tempo, chiclete com banana; formiplac e céu de anil. Essa síntese particular não pretendia apaziguar o embate mas provocar com ironia ferina as certeza de ambos os lados.

Desde 1988 fomos levados a acreditar, num renovado vigor da aposta na modernidade, na universalidade dos direitos elementares dos cidadãos. Chegamos até mesmo a crer (ao menos alguns de nós) que todo brasileiro pudesse comer três refeições ao dia, que o país pudesse ser soberano e que fosse possível superar ­ou ao menos conter­ o racismo, a violência machista, o preconceito regional.

Esta segunda década do século XXI exige a atualização de todos os esquemas intelectuais. As grandes corporações de tecnologia da comunicação, o capital financeiro, os sindicatos industriais e boa parte do aparato estatal fomentam e apoiam a venda do patrimônio nacional, o sucateamento de nossas empresas competitivas e o abandono da educação e do desenvolvimento científico pelas próximas décadas.

Um secretario nacional lamenta que não haja mais chacinas nas prisões e o prefeito milionário da maior cidade do país se veste de gari para receber o apoio de uma ex­estrela da Globo.

Nem o mais perverso tropicalista redigiria esse roteiro.

Não se trata mais de modernidade ou atraso. No Brasil do século XXI a barbárie está vencendo de goleada qualquer expectativa de civilização.


*Carlos Alberto Ferreira Martins é professor titular do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP . Publicado originalmente no Jornal Primeira Página, de São Carlos

sábado, 14 de janeiro de 2017

Narcotráfico: a blindagem do alto clero II

Sanguessugado do GGN



Xadrez do Brasil na era do narcotráfico – 2


Luis Nassif



Peça 1 – os ladrões de bicicleta e os de helicóptero

Vamos a desdobramentos do artigo anterior, incorporando análises e informações trazidas por vocês e uma longa conversa com o juiz Luiz Carlos Valois, de Manaus.

O juiz chama a atenção para algumas discrepâncias que se tornaram corriqueiras na análise do tráfico.

Como imaginar que organizações criminosas, formadas apenas pelo baixo clero, cujas principais lideranças estão presas, e são moradores de barracos em favelas, possam comandar uma estrutura da dimensão do tráfico de cocaína? Como diz Valois, os verdadeiros comandantes andam de helicópteros.

Tome-se o transporte de cocaína. A parte mais artesanal são as mulas, em geral provenientes de países africanos, trazendo cocaína na bagagem ou no estômago.

Trata-se de uma quantidade irrelevante, perto dos sistemas profissionais de transporte: containners com drogas, no meio de produtos de exportação, vindos por avião, navios ou por caminhões pela fronteira.

Esse grande atacado exige sistemas muito mais pesados de corrupção. Passam pela aduana, nos aeroportos e portos do país, pelo acesso a grandes escritórios de advocacia e aos tribunais superiores, por informações provenientes dos órgãos de investigação.

Exigem fluência em línguas para estabelecer os contatos internacionais, e sofisticação financeira para transitar o dinheiro pelos paraísos fiscais ou em grandes esquemas de lavagem.

Como bem coloca a leitora que assina Hydra:

Também foi menosprezada pelo autor um fator preponderante, sem o qual nenhuma estrutura organizada funciona: o Estado.

Não a corrupção dos agentes estatais, mas a participação do Estado como resultado de suas políticas públicas, ou seja, de sus escolhas.

As rotas relevantes internacionais e nacionais, aquelas que carregam volumes em nível de atacado (tubarões) não existem da forma precária imaginada.

Não.

Elas funcionam com o conhecimento de esferas importantes de controle nos portos, aeroportos e outros modais.

Foi justamente a desregulamentação (advinda da privatização) de portos, aeroportos, etc, que conferiu a possibilidade das redes de tráfico de atuarem livremente e em escala global.

Todo mundo que trabalha em aduana conhece os containers e o modelo green light, por exemplo.

As redes de contrabando e tráfico de pessoas/armas (bem mais antigas que as do tráfico) foram as principais privilegiadas com o processo de desmonte estatal, transformando as aduanas em terras de ninguém.

Portanto, a facilitação do tráfico de drogas foi resultado de uma escolha política, de uma ação de Estado, juridicamente sustentada, politicamente legitimada.

Faltou também ao autor considerar os mercados de bens de luxo, assim como o mercado imobiliário, artes, joias, veículos, coleções e leilões, grandes parceiros das redes de lavadores de dinheiro ilegal, que já funcionavam como acessórios de outras atividades criminais (desvio de verbas públicas, por exemplo) e que agregaram o dinheiro do tráfico de drogas como um plus, e que hoje funcionam em completa sinergia.

Peça 2 – o mercado global do crime

Primeiro grande sociólogo a estudar o fenômeno da globalização do crime, o espanhol Manuel Castells constatou que o crime recorre aos mesmos modelos de atuação das multinacionais.

A globalização, os sistemas de informação instantâneos, a convivência das diversas formas de crime em um mesmo circuito, favoreceram o chamado empreendedorismo do tráfico.

No mercado financeiro, existe ainda uma zona cinzenta dos paraísos fiscais e dos doleiros, onde convivem caixa 2 de empresas, corrupção política, diversas formas de contravenção – do bicho ao roubo de remédios –, mercado de artes e de jogadores de futebol, e capitalistas em geral, atrás de negócios rentáveis de retorno rápido.

É um mercado informal em que as oportunidades de negócios são oferecidas através do circuito de consultores financeiros e doleiros em geral.

Suponha um jovem empreendedor que queira atuar no mercado do narcotráfico. Sua organização necessitarias das seguintes especialidades:

1.Especialista em comércio exterior.

O conhecimento das entranhas das alfândegas, dos entrepostos, dos sistemas de transporte, é know-how das redes tradicionais de contrabandistas, das tradings e, hoje em dia, de qualquer grande empresa nacional ou internacional sediada no Brasil. Ou seja, há um conhecimento consolidado sobre as estradas e picadas do comércio internacional e oferta de mão-de-obra especializada.

2.Operadores financeiros

Há um amplo know-how no país, de doleiros operando em todas as pontas do esquema, dos investimentos na contravenção à lavagem de dinheiro. As formas de lavagem de dinheiro do PCC – postos de gasolina ou vans – são varejos irrelevantes, perto do dinheiro envolvido no tráfico, o que fortalece a versão de que são a ponta pobre do sistema.

3.As ligações internacionais

Como identificar pontas fornecedoras e pontas compradores de drogas? Ora, são informações que circulam no mercado cinza, através da rede de doleiros, ainda mais com as interligações possíveis nesses tempos de Internet e What’sApp.

4.As formas de blindagem

Autoridades – políticos, magistrados, delegados – que entram no negócio e ajudam a fortalecer a blindagem, da mesma maneira que Carlinhos Cachoeira valendo-se do ex-senador Demóstenes Torres.

Portanto, há todo um ambiente propício ao empreendedorismo no narcotráfico: mão-de-obra especializada, circuito exclusivo de informações, modelo de negócio já testado. Basta o narcoyuppie identificar uma região demandante para montar seu negócio juntando as demais peças do jogo.

Voltando à conversa com o juiz Valois, quem está mais apto a reger essa orquestra, o narcoyuppie que anda de helicóptero ou o traficante que está no presídio?

É por aí que se entende o provável superdimensionamento das organizações criminosas.

Peça 3 – a ficção da repressão às drogas

Por tudo isso, as supostas superogranizações criminosas, que hoje estão no centro de todas as políticas repressivas, talvez não passem de uma mera ficção, um enredo cômodo, de estruturas criminosas, compostas apenas de peixes miúdos e que têm a particularidade de todos seus líderes estarem presos.

Para a polícia, o trabalho se resume a campanas, prisões de mulas ou pequenos traficantes e à descoberta eventual de carregamentos maiores de cocaína. De vez em quando, um Ministro exibicionista aparece em fotos podando pés de maconha.

Para o Ministério Público, a denúncia também não dá trabalho: é padrão. Para o juiz, a detenção ou condenação é como em uma linha de montagem. Depois, no presídio, separam-se os presos de acordo com a região onde moram, engordam-se as estatísticas de prisões e de população carcerária e alimentam-se as lendas sobre as superquadrilhas.

Juízes de 1a, 2a ou 3a instância, assim como promotores, procuradores regionais ou subprocuradores, nem precisam dedicar muito tempo aos casos. Está tudo padronizado, catalogado, armazenado em docs no computador, bastando apenas trocar o nome do réu a cada processo. O trabalho da inteligência se resume a identificar novas áreas de plantio e novas rotas de entrada. E todos dão o trabalho como concluído, enquanto aumenta exponencialmente o comércio de drogas.

Só dá trabalho quando algo sai do previsto. Como, por exemplo, a detenção de um piloto de helicóptero, sem saber que pertencia ao filho de um senador da República, amigo e correligionário de um candidato à presidência da República.

Não é por outro motivo que a CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira) passou a ser um imposto maldito, pelo fato de permitir rastrear as movimentações inclusive no mercado cinza.

Peça 4 – a economia da droga

E aí se entra em um terreno muito distante para um país que não consegue enxergar um palmo além do momento presente: está perto o dia não apenas para a descriminalização da droga, mas, como observa o juiz Valois, para a regulamentação da economia da droga.

Segundo trabalhos acadêmicos, a demora para os EUA descriminalizarem a droga estava ligada à dependência de importações.

Nesse interregno, os EUA já patentearam as sementes de grande parte das espécies de maconha conhecidas.

Nos próximos anos, prevê Valois, surgirão as novas Ambevs ou Souza Cruz, explorando as novas formas de droga legalizada.

Será um movimento gradativo de liberalização, em que haverá uma regulamentação específica para cada droga, de acordo com seu menor ou maior efeito. Hoje em dia, por exemplo, as embalagens de cigarro são obrigadas a estampar fotos de pessoas afetadas pelo fumo. As de bebida escaparam das fotos de grandes acidentes provocados pelo álcool.

A regulamentação gerará receita fiscal, possibilidade de políticas de saúde para os dependentes. E, principalmente, liberará a polícia para trabalhos efetivos de prevenção e de elucidação de crimes. Hoje em dia, praticamente todo o tempo policial é dedicado exclusivamente ao trabalho de combater a arraia miúda do tráfico.

O enorme exército de mão-de-obra envolvido com o tráfico será absorvido pela economia formal ou por formas menores de contravenção. E o rico mercado cinza terá que descobrir outras formas de dinheiro fácil.


Talvez, aí, polícia e Ministério Público tenham mais tempo para apurar outras modalidades de crimes de colarinhos brancos.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

“O PT funcionou como um prestador de serviços para as elites”




Entrevista com a filósofa Isabel Loureiro 
Agnese Marra
Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti
Brecha (Uruguay)



“O ponto débil do lulismo foi acreditar na fórmula mágica de dar aos pobres sem tirar dos ricos”, disse ao semanário Brecha a filósofa brasileira Isabel Loureiro, uma das coordenadoras do livro “As contradições do lulismo” (Boitempo), no qual oito professores universitários desconstroem os governos de Lula e de Dilma Roussef.



Agnese Marra: O que diferenciaria o lulismo do petismo?


Isabel Loureiro: Usamos o conceito de lulismo do professor André Singer, com referência a um reformismo débil no qual não se produzem transformações estruturais, mas sim uma integração das classes populares através do consumo, o que não significa um aumento da cidadania. Para mim, o petismo se diferenciaria do lulismo por situar-se mais à esquerda da figura de Lula, mas nem todos os autores do livro tem a mesma opinião.


Agnese Marra: Vocês assinalam as contradições e os pontos fortes e débeis do lulismo. Poderia nos falar dos essenciais?


Isabel Loureiro: Os pontos fortes do lulismo seriam o leque de políticas sociais voltadas às classes mais baixas, como o Bolsa Família, as quotas para negros nas universidades, a expansão da universidade pública, o crédito real para pequenos agricultores, entre outras. Essas medidas foram especialmente boas no segundo governo de Lula e no primeiro de Dilma, disso não há dúvida. O ponto mais débil foi acreditar na fórmula mágica de dar aos pobres sem tirar dos ricos.  Não houve um enfrentamento às elites e muito menos ao capitalismo, mas também é preciso dizer que isso não se sucedeu somente no Brasil, mas também em todos os governos chamados progressistas na América Latina. Todos pecam no mesmo problema do lulismo, que é apostar em um modelo neo desenvolvimentista, baseado no extrativismo, no colonialismo interno, na dilapidação da natureza e na violência contra as comunidades tradicionais. 


Agnese Marra: No seu capítulo do livro você fala precisamente da reforma agrária pendente, e assegura que Lula vai ser lembrado como “o presidente companheiro dos usurpadores de terra”.


Isabel Loureiro: Essa idéia é do professor Ariovaldo Umbelino de Oliveira e eu estou completamente de acordo com ela. Durante a época de Lula, foram legalizadas terras públicas da Amazônia que tinham sido invadidas por latifundiários, ou seja, legalizou-se algo ilegal.  Durante o lulismo, não houve reforma agrária, pelo contrário: aumentou a concentração. Por outro lado, em 2009 Lula liberou o uso de transgênicos, e hoje somos o maior consumidor de agrotóxicos do planeta. Portanto, o que vimos nesse governo progressista foi um apoio oficial ao modelo hegemônico do agronegócio.  Entendo que houve um contexto internacional favorável à venda de commodities em função do aumento da demanda da China, mas poderia ter sido levada adiante uma política que não fosse exclusivamente centrada no extrativismo de matérias primas, embora o problema de fundo é que a esquerda brasileira é desenvolvimentista. No Brasil, ao menos o PT,  não é uma esquerda crítica da modernização capitalista, e por isso a nova luta da esquerda é começar a pensar em outros termos.     

 

Agnese Marra: Você acredita que a esquerda brasileira necessita tornar-se independente do lulismo para se reencontrar?


Isabel Loureiro: Neste momento, a figura de Lula prejudica a esquerda na hora dela reestruturar-se. Lula tem uma visão caudilhista da política, é um caudilho do PT. Isso pode ser constatado em como nem ele nem seu partido permitiram que surgisse outro líder. Aqueles que apareciam como possíveis substitutos estão na prisão.  O PT é um partido burocratizado, com uma trajetória semelhante à dos partidos social-democratas europeus. Nesse sentido, não creio que essa forma possa ser uma saída para a esquerda na América Latina. Contudo, ao mesmo tempo não podemos negar que a derrota do PT arrasta junto a esquerda como um todo, e essa é uma das grandes contradições,  por que esse partido continua sendo o grande aglutinador da esquerda no Brasil  Quando ele desmorona, parece não haver uma alternativa real de esquerda, ao menos nos termos de possibilidade de ganhar eleições. A meta da esquerda é reformular-se sem pensar constantemente nas próximas eleições, mas sim preocupar-se com o que as pessoas precisam.   


Agnese Marra: Além da questão do campo, no livro vocês falam muito das grandes conquistas do lulismo relacionadas com o aumento do número de jovens com instrução universitária. Contudo, mencionam que ao mesmo tempo fortaleceram-se instituições de iniciativa privada de qualidade duvidosa


Isabel Loureiro: Os programas de apoio ao crédito para que os jovens pudessem ingressar na universidade tiveram um lado negativo, porque fortaleceram faculdades privadas de muito má qualidade. Lula sempre se justificou alegando que se não fosse dessa maneira, o ingresso das classes populares na universidade levaria uma eternidade. Apesar do auxílio a esse tipo de instituições, não se pode deixar de reconhecer que para muitos dos alunos graduados se abriram novas perspectivas de olhar o mundo. Lembro-me muito de um  artigo de de Regina Magalhães, docente em uma dessas universidades privadas, que conta como seus alunos de Sociologia começaram a perceber que viviam em uma coisa que se chama sociedade, e que não eram indivíduos isolados. Eles começaram a estabelecer novas relações e a criar um pensamento mais crítico, o que antes lhes era impossível  


 Agnese Marra: Apesar da má qualidade de algumas das universidades, pode ser reconhecer que o ingresso nelas gerou uma certa mobilidade social?


Isabel Loureiro: Nisso não há dúvida. O artigo de Ruy Braga explica isso muito bem  quando fala das mulheres jovens que trabalham meio turno  em um call center de telemarketing e na parte da tarde freqüentam essas universidades privadas. Apesar do nível horrível do ensino nelas, essa jovem já não vai ser empregada doméstica como era sua mãe. Pode ser inclusive que o salário  que ela ganhe no telemarketing ou nos empregos posteriores seja igual ou mais baixo  que o de empregada, mas simbolicamente a ascensão social é imensa.


Agnese Marra: No capítulo em que se fala sobre o Bolsa Família assinalam que não houve mudanças estruturais e que não ajudou a terminar com a criminalização da pobreza...


Isabel Loureiro: Para o autor do artigo, Carlos Alberto Bello, um dos pontos fracos do programa Bolsa Família é o fato de que ele não faça parte da Constituição, ou seja, que não tenha sido institucionalizado como um direito, mas sim de uma medida que fica dependendo  da vontade do governante do momento.  Por outro lado, ele critica que a integração das classes populares foi precária e despolitizada, somente através do consumo e sem oferecer a idéia de cidadania e direitos. Nesse sentido, insiste que a sociedade brasileira continua criminalizando a pobreza, que é vista como responsabilidade dos próprios pobres. É dominante a idéia de que o pobre é preguiçoso e que não trabalha por que não quer.  E o pior de tudo é que, ao não se haver apostado na politização, são os próprios pobres que assumem essa idéia em relação a si mesmos.  Não creio que possamos esperar que sejam as classes populares as que saiam da passividade política diante do giro à direita que o país está tendo.


Agnese Marra: Viu-se que precisamente as classes populares foram as que apoiaram a direita em cidades como São Paulo, com um prefeito recém eleito  que propagandeia a idéia da meritocracia.


Isabel Loureiro: Isso também tem a ver com a despolitização. Curiosamente, as pessoas que se beneficiaram de políticas públicas, como por exemplo as bolsas nas universidades, acreditam que sua ascensão social  deve-se a mérito próprio e não a relacionam com as políticas incentivadas no país.  Uma vez que sentem que o mérito é delas, e que ao mesmo tempo tem mais capacidade de consumo, deixam de se sentirem pobres e portanto não querem mais votar no PT, “o partido associado aos pobres. Preferem votar nos partidos de direita, que associam aos ricos e à classe média. Esse paradoxo que agora enfrenta o lulismo é justamente por não ter querido apostar em uma inserção social mais politizada, como a que faziam juntamente com a Igreja Católica quando o partido nasceu. O PT deixou de lado esse tipo de educação e de contato com as bases e com as realidades sociais.  


Agnese Marra: Em sua opinião, quando foi que o lulismo deixou de ter contato com as suas bases?


Isabel Loureiro: As pessoas que estudam o PT desde a sua formação como partido assinalam uma mudança já nos anos 80, quando começaram a conquistar prefeituras. A partir de então e até agora, o PT Foi abandonando as suas bases, e seu aparelho centrou-se exclusivamente em ganhar eleições, o que o obrigou a fazer cada vez mais concessões até que cheguem ao Executivo. A partir desse momento, o PT se converteu no que é hoje: um partido eleitoreiro,  preocupado somente em ganhar eleições.



Agnese Marra: Você acredita que o PT está passando por um processo de autocrítica?


Isabel Loureiro: Agora todos levam as mãos à cabeça com o que aconteceu no ano passado. As bases do partido talvez estejam discutindo possíveis erros cometidos, mas o aparelho não está fazendo isso. A prova mais clara disso é que querem colocar Lula em 2018, como se ele fosse a solução de todos os problemas e a única forma de salvar o partido.


Agnese Marra: Lula conseguirá lançar-se em 2018?


Isabel Loureiro: Parece-me que é o que querem tanto ele como o aparelho do partido, mas será muito difícil, por que as elites brasileiras se juntarão para impedir que isso aconteça, e se for necessário o levarão à prisão. O PT tem funcionado como  um prestador de serviços para as elites do país, que terceirizaram o governo quando foi conveniente para elas. Quando viram que a operação Lava Jato se aproximava demais delas e Dilma não fazia nada para impedir isso, decidiram que elas iriam governar novamente. O Brasil é um país profundamente retrógrado, que as elites nunca deixaram de governar. Durante algum tempo, elas permitiram que se mantivesse esse reformismo débil do qual fala Singer, mas inclusive isso lhes pareceu demais.


 Agnese Marra: No livro, vocês sustentam que o lulismo fomentou a pacificação social.


 Isabel Loureiro: Sim, algumas pessoas situadas mais à esquerda, como nós, diziam que se vivia a paz dos cemitérios.  Enquanto as pessoas consumiam celulares e televisores de plasma, ficaram em letargia e parecia que tudo estava bem por que tinham acesso a bens de consumo que pagavam em 20 prestações, uma falsa ilusão. Várias pesquisas demonstraram que as desigualdades continuavam, e que apesar de haver muito mais empregos, estes eram enormemente precários; a saúde também tinha melhorado um pouco, mas continuava em geral sofrível. Nós, que estávamos à esquerda do PT, éramos muito maltratados, diziam que éramos agoureiros, e parecia que a luta de classes tinha desaparecido do horizonte. Contudo, sabemos que ela nunca desaparece, era tão somente uma panela de pressão prestes a explodir.     


Agnese Marra:  As manifestações de junho de 2013 foram essa explosão na qual as contradições do lulismo apareceram de repente?


Isabel Loureiro: Junho de 2013 foi essa transição abrupta: num dia,  parecia que tudo estava bem, e no dia seguinte ninguém estava satisfeito.  Sim, podemos dizer que foi nesse espaço de tempo que se viram boa parte das contradições do lulismo  e da despolitização da qual falávamos antes. Lula e Dilma investiram nas universidades públicas e em bolsas para acessar a universidade, mas as pessoas saiam para as ruas exigindo qualidade na educação. O mesmo acontecia com a saúde. Muitos desses jovens tinham sido beneficiados pelas políticas lulistas, mas não eram conscientes disso e queriam mais. O governo de Dilmae o PT ficaram completamente paralisados; não souberam entender o que estava acontecendo, e creio que até hoje não  entenderam. 


 Agnese Marra: Contudo, pode dizer-se que o lulismo marcou um antes e um depois em relação aos governos anteriores?


Isabel Loureiro: No que se refere à política econômica, me parece exagerado pensar que seus governos marcaram um antes e um depois. Somente é preciso lembrar a famosa Carta aos Brasleiros, que Lula escreveu quando chegou ao poder, onde deixava claro que iria continuar ao lado dos mercados financeiros. No que se refere à macro-economia, manteve uma política não muito distante da do seu antecessor Fernando Henrique Cardoso. É certo que levou adiante políticas sociais muito mais amplas que os governos anteriores,  com um modelo neo desenvolvimentista sustentado pelos commodities e pelo agronegócio, mas conseguiu uma redistribuição de renda que, por sua vez,  provocou uma ascensão social importantíssima, principalmente para aqueles que estavam na miséria.  Se a nível político não se possa dizer que ele tenha sido revolucionário, acredito sim que houve um antes e um depois em termos simbólicos.  A possibilidade de que um metalúrgico chegasse á presidência  em um país tão desigual  e elitista quanto o Brasil foi um fato importantíssimo para as classes populares. Por outro lado, esse fato crucial também escondeu os conflitos reais e a luta de classes latente, como se não houvesse mais nada a fazer por que tudo já tinha mudado. Como não houve mudanças estruturais, voltamos rapidamente ao passado. Demos um passo adiante e dois para trás.         





Narcotráfico: a blindagem do alto clero

Sanguessugado do GGN

Matéria na íntegra, basta clicar no link GGN

Luis Nassif




Se os presídios estão abarrotados com representantes do baixo clero, da mais alta à mais baixa periculosidade, as celas especiais destinadas ao colarinho branco estão vazias.

Hoje em dia, qualquer estratégia contra o crime organizado teria que obedecer à máxima de “seguir o dinheiro”.  A figura-chave, então, passa a ser o operador financeiro, o doleiro, que une as pontas do Chefe do Tráfico, os financiadores, a corrupção política.



Em 2003, o então Ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos desenvolveu a Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro (Enccla), juntando mais de 60 órgãos dos Três Poderes ligados a alguma forma de fiscalização (https://goo.gl/LTjTlB).

O modelo foi amplamente utilizado na Operação Lava Jato. Nem resvalou no combate ao tráfico. Um superdoleiro como Alberto Yousseff conseguiu sua segunda liberdade provisória sem que o juiz Sérgio Moro – veterano do caso Banestado – ousasse extrair nenhuma informação sobre o tráfico. Ressalve-se que o tráfico tem argumentos eloquentes para demover delatores: quem delata, morre.

Mesmo assim, cada vez que se avança sobre doleiros, bate-se de frente com a economia formal, com grupos influentes, muitos deles parceiros preferenciais do MPF que se valem dos mesmos canais de lavagem de dinheiro do narcotráfico. Quando chega aí, as investigações param.

Alguns exemplos:

1.     Em 2009, procuradores do MPF estouraram o escritório de um casal de doleiros do Rio de Janeiro, na Operação Norbert. Toparam com uma conta de Aécio Neves em Liechtenstein. O caso foi parar na gaveta do PGR Roberto Gurgel em 2010 e só saiu em 2016, quando a parcialidade do PGR Rodrigo Janot se tornou flagrante. Mesmo assim, o inquérito caminha a passos lentíssimos, com jogos de empurra entre o Ministro Gilmar Mendes, do STF, o PGR e a Polícia Federal (https://goo.gl/KASihP).

2.     Nas investigações sobre o suposto Triplex de Lula, a PF implode os arquivos da Mossak Fonseca, escritório norte-americano famoso pela lavagem de dinheiro de ditadores e políticos. Depara-se, então, com contas da família Marinho. A investigação desaparece e nao renasce nem com os Panama Papers (https://goo.gl/IgvSCb).

3.     Em um dos dos maiores escândalos dos últimos anos, o da FIFA, uma simples juíza federal tranca o envio de documentos do MPF para o FBI. O caso está parado no STF sem nenhuma manifestação de indignação do PGR.

4.     Quando o caso HSBC veio à tona, apareceram nomes de grupos de mídia aliados do MPF. O caso sumiu.

5.     O caso Carlinhos Cachoeira foi exemplar. O MPF de Goiás montou a Operação Monte Carlo. Foram encaminhados ao Procurador Geral Roberto Gurgel os dados relativos aos parlamentares – que tinham foro privilegiado. Gurgel paralisou as investigações. Chamado pela CPMI de Cachoeira a dar explicações, informou que segurou o inquérito para não atrapalhar a Operação Las Vegas, destinada a investigar o bicho. Posteriormente, procuradores de Goiás informaram que as duas operações não tinham relação entre si (https://goo.gl/oNyfk0). Cachoeira está solto e tendo, entre seus ativos formais, um laboratório farmacêutico (!).

O episódio mais notório é o do helicóptero que caiu transportando 500 quilos de cocaína. Não há nenhuma prova concreta conhecida a ligar o caso ao presidente do PSDB Aécio Neves. Mas existe um conjunto de circunstâncias que, no mínimo, exigiriam investigações e explicações:

1.     O helicóptero pertencia a Gustavo Perrela, filho do senador Zezé Perrela, estreitamente ligado a Aécio.

2.    Conforme o GGN publicou em 26 de julho de 2014, (https://goo.gl/OmFYYc ), não haveria condições do helicóptero ter percorrido 1,17 mil km em linha reta sem uma parada para reabastecimento. E o reabastecimento não ocorreu em nenhum aeroporto fiscalizado pela ANAC. Por coincidência, o aeroporto de Cláudio, construído no governo Aécio perto de propriedades da família, ficava na rota percorrida pelo helicóptero e ainda não fora homologada pela ANAC.

3.    Morador em Cláudio, o primo de Aécio, Tancredo Tolentino, foi acusado de negociar habeas corpus para traficantes, em conluio com um desembargador do Tribunal de Justiça.

4.    Perrela injetou muito dinheiro no Cruzeiro Futebol Clube. Depois de conquistado o bu-campeonato nacional, praticamente todo o elenco foi negociado com o exterior (https://goo.gl/vmcF19). O comércio de jogadores sempre foi uma peça relevante na lavagem de dinheiro.

Hoje em dia, o inquérito está parado, graças a um HC do Tribunal de Justiça de Minas, apesar dos esforços de procuradores da República de Minas de tocarem as investigações.

Não se ouve protesto no Supremo Tribunal Federal (STF), nem da parte de Ministros que passaram a defender o estado de exceção contra a corrupção, como é o caso de Luís Roberto Barroso. Parceria do MPF no combate intransigente à corrupção, nenhum grande veículo da imprensa se interessa pelo tema – cuja cobertura está restrita aos blogs e portais alternativos.


De fato, o crime organizado domina o país. Mas ele não está restrito às celas infectas dos presídios.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Num acredito no que fizeram nossos pais e avós

GilsonSampaio

Muito bom o instantâneo. Senti falta do personagem principal: a canalha bancária e seus acólitos rentistas. É preciso muita força de convencimento para explicar aos coxinhas e público em geral a razão pela qual 71 mil brasileiros pagam apenas 6,5% de IR sobre ganhos de capital, isto é, ganhos sem lastro, sem produção de sequer um alfinete, enquanto a coxinhada e a população paga 27% por trabalhar. Divulgação do conteúdo do Auditoria da Dívida Pública da Maria Lucia Fatorelli e outros que existam, de como é formado o famigerado COPOM etc Tudo isso numa linguagem acessível, se necessário, desenhado e, mais importante, que não seja pro público interno, ou seja, que tenha força suficiente para sair do circuito fechado das diversas paróquias blogueiras progressistas.

Mais notas para resistência

Sanguessugado do O Cafezinho

Miguel do Rosário, Postado em Arpeggio, Assinante, Miguel do Rosário, Política



A história é um pesadelo do qual é possível acordar? Diante da brutal campanha de destruição a que o Brasil foi submetido, vale a pena fazer uma comparação entre a nossa realidade e a narrativa contada na mais nova série da Amazon, The Man in The High Castle (tradução literal: o homem no castelo do alto).

A série, baseada no romance homônimo de Philip Dick, é um magnífico suspense de espionagem, ambientado nos anos 60, num mundo onde os nazistas venceram a II Guerra. Os Estados Unidos foram divididos pela metade. O oeste é ocupado pelo Japão, o leste faz parte do III Reich alemão. Há uma zona neutra no centro do país, semi-abandonada.

O plot, no entanto, e não posso falar muito, já seria genial se fosse só isso, mas há ainda um ingrediente fantástico, realidades paralelas se desenrolando simultaneamente.

E se, por exemplo, o golpe não tivesse acontecido? Se a Lava Jato tivesse sido desmascarada logo no início, evitando o desastre que se seguiu?

Sim, porque agora está claro. O Brasil foi destruído por dois agentes principais: Lava Jato e Globo. Os coxinhas foram a massa de manobra. O seu nível de indigência mental é algo apavorante, mas eles são vítimas de décadas de lavagem cerebral midiática.

Antes da Lava Jato, o Brasil crescia, o desemprego era o menor da história, as contas públicas estavam todas em ordem, os investimentos em educação, saúde e infra-estrutura eram recordes, a luta contra a corrupção prosseguia de maneira organizada e firme.

A economia é um ecossistema. Os setores de petróleo e gás e de construção pesada formam (ou formavam, já que foram praticamente aniquilados pela Lava Jato) o que os clássicos de economia chamam de "indústria de base".

A destruição de um setor importante gerou um efeito cascata que arrasou dramaticamente toda a economia brasileira. Mas isso era óbvio que ia acontecer. O nível de irresponsabilidade da Lava Jato, e das autoridades que tinham prerrogativas para impedir esse desastre, é inacreditável.

Quando FHC fez o Proer ao final de seu segundo mandato, para salvar os bancos, emprestando a eles o equivalente a mais de 100 bilhões de reais, a elite brasileira defendeu a operação alegando que era necesária para gerar um efeito sistêmico. O argumento convenceu muita gente, até mesmo Lula, que elogiou os tucanos pela iniciativa. Quando os governos do primeiro mundo, diante de grandes crises financeiras, injetaram trilhões de dólares no sistema bancário, o mundo inteiro ficou horrorizado, mas ninguém encontrou argumentos satisfatórios para contestar o óbvio: era preciso evitar uma crise sistêmica.

O que faz a Lava Jato? Ao contrário de qualquer bom senso, o próprio Estado produz uma crise. Ele se autodestrói. Um punhado de mandarins do serviço público, que auferem rendas mensais sem paralelo no planeta, resolve destruir as mesmas empresas cujos impostos abastecem os cofres que pagam seus próprios salários!

Quando falamos dos marajás do serviço público brasileiro, devemos ser claros: refiro-me ao Ministério Público e ao Judiciário. No caso da Lava Jato, a farra é agravada pelos gastos extras. Os procuradores da Lava Jato viajavam aos EUA, tudo pago por dinheiro dos contribuintes, para repassar informações ao Departamento de Justiça americano, contra a Petrobrás e a Odebrecht, ou seja, justamente as empresas que mais pagam impostos no Brasil.

O Estado brasileiro se suicidou. Ele matou as próprias empresas que o sustentavam. A campanha alucinada contra a Petrobrás, por exemplo, é a maior estupidez do mundo, porque a estatal é a maior pagadora de impostos do país. São mais de 100 bilhões de reais pagos ao ano, e isso acontecia independente do nível de lucros ou do preço do petróleo.

O maior culpado disso, no entanto, é a Globo, porque a fonte de desinformação, a raíz da loucura, vem dela. Somente uma opinião pública informada poderia evitar esse suicídio, e como seria possível um monopólio, cheio de interesses próprios, dar conta do sofisticado, complexo e contraditório conjunto de dados que explicam a realidade nacional? E como é possível haver democracia ou desenvolvimento sem informação?

A Globo nunca fez uma mísera reportagem para mostrar quanto de imposto a Petrobrás pagava. Ao invés disso, fazia matérias criminalizando os impostos, sem esclarecer a população de que, sem impostos, não há infra-estrutura, segurança, saúde. Não há governo.

Eu tenho falado muito nos Estados Unidos, porque eu acho que a única maneira de entendermos o Brasil é nos comparando com outro país, e naturalmente com uma economia desenvolvida, que nos sirva de modelo, não necessariamente político, mas em termos de infra-estrutura e bem estar social.

Quando observamos o cenário político, vemos que até mesmo a direita brasileira, até mesmo as instituições conservadoras, são manipuladas pela Globo. Mesmo considerando a direita em seus próprios parâmetros ideológicos, vê-se que ela é inteiramente equivocada.

Eu não quero convencer apenas a esquerda. Eu quero convencer também os coxinhas, porque eu considero que todos nós somos vítimas da desinformação.

A manipulação da informação é uma máquina de destruição em massa, porque ela leva as lideranças brasileiras, à esquerda e à direita, a tomarem decisões erradas, como tem acontecido.

O neoliberalismo, por exemplo, é uma historinha para boi dormir vendida para coxinhas do terceiro mundo. O mundo desenvolvido jamais foi neoliberal. Os coxinhas não conhecem sequer o outro lado das grandes economias, as lutas sociais que deram grandeza aos Estados Unidos e Europa. Foram milhares de greves, manifestações, protestos, milhões de artigos, livros, filmes, séries.

Há um livro do Gay Talese, sobre a história do New York Times, que trata das greves dos trabalhadores de imprensa ao longo de toda a primeira metade do século XX. Nova York chegou a ficar sem jornal durante quase um ano, por causa de uma greve. E os jornalistas e escritores, mesmo passando por dificuldades, quase sempre ficavam aos lado dos trabalhadores. Tudo isso gerou uma cultura política original, que passa muito longe dos estereótipos dos EUA que os coxinhas construíram assistindo filmes da Marvel.

Foi assim também com a Roma Antiga. Ela só se tornou grande através dos séculos por causa das terrível lutas sociais que foram conformando a República e depois o Império.

Tudo isso permanece hoje. A luta social ainda é muito intensa nos Estados Unidos. O coxinha viaja para Miami, e observa as calçadas limpas, o ônibus bonito, mas não lê na imprensa brasileira que o transporte é público, que as cidades americanas apenas se desenvolveram porque seus trabalhadores ganham bem, e que eles só ganham bem porque lutaram muito para isso.

A mídia brasileira é a pior do mundo, porque transformou o país numa ilha política cercada de mentiras por todos os lados. Há mentira e omissão até mesmo nos detalhes. Na Europa e EUA, por exemplo, os terminais de autoatendimento bancário são centralizados. No Brasil, não. No shopping center, na rua, cada banco precisa ter seu terminal bancário. As unidades 24 horas, que supostamente prestariam serviços para todos os bancos, cobram taxas caras e nunca avançaram muito. Tudo isso eleva o custo bancário por pessoa, e entra no famigerado custo Brasil.

As tarifas públicas cobradas por serviços de internet e telefonia também são mais caras no Brasil do que em outros países, e isso deveria ser denunciado dia e noite pela grande mídia. São essas coisas que aprisionam a economia brasileira e entravam o nosso desenvolvimento, levando prefeituras e estados à falência, porque os recursos se concentram em mãos de poucas empresas, as quais, diante de consumidores descapitalizados, também enfrentam problemas.

Tudo isso é culpa da mídia brasileira, que não faz campanhas para redução das tarifas, que não produz pesquisas comparativas com os preços praticados em outros países.

Também não é possível desenvolver uma ideologia política adequada à política brasileira sem informação. Lembro-me de ter lido uma bela reportagem no Washignton Post, alguns anos atrás, sobre um programa social lançado em Washington, no qual o Estado simplesmente pagava integral ou parcialmente o aluguel de apartamentos para sem-teto viverem. Era um programa já consolidado no Canadá. Havia estudos provando que saía mais barato para o Estado pagar alugueis do que arcar com as consequências das populações de rua, além do bem estar e paz social criados com o desaparecimento da visão infernal, um prejuízo moral para todos, de ver famílias vivendo nas ruas.

Há muitos anos que observo que a campanha de desinformação ideológica é brutal. Lembro-me que, quando o governo lançou o Bolsa Família e se ouviu aquele burburinho todo contra os programas sociais, nenhum jornalista da grande mídia teve a decência de esclarecer a opinião pública brasileira, em especial a classe média que adora Europa e os EUA, informando que esses países tinham e tem, desde priscas eras, programas sociais muito mais dispendiosos.

No New York Times de ontem, há uma reportagem sobre o novo posicionamento político de Andrew Cuomo, governador de Nova York, desde já cotado como pré-candidato democrata para as eleições presidenciais de 2020. Diz a reportagem que Cuomo está fazendo uma série de "movimentos à esquerda (left-leaning)", que incluem o aumento do salário mínimo, a legalização de casamento do mesmo sexo e a aprovação de leis que regulamentam o comércio e o uso de armas de fogo.

Eu acho interessante porque o coxinha médio brasileiro não sabe que os Estados Unidos é uma democracia onde existe uma enorme tensão política entre tendências à esquerda e à direita, e que a grandeza do país nasce da energia gerada pela tensão e não do esmagamento total de uma das forças.

A ignorância da esquerda em relação aos EUA também é prejudicial, porque não convence. Ao vender os EUA como origem do mal, a esquerda perde a oportunidade de mostrar à sociedade brasileira que existe uma interessante luta de ideias por lá.

Cuomo (o governador de NY) quer se posicionar como o anti-Trump, e, com isso, ganhar não apenas os eleitores democratas, mas todos aqueles que não se empolgaram com a candidatura dúbia de Hillary Clinton. Nos eventos que está promovendo em Albany, uma figura de destaque tem sido Bernie Sanders, o democrata autodeclarado socialista que, segundo muitos analistas, poderia ter vencido Trump. Num desses encontros, Cuomo defendeu que "o grande Estado de Nova York sirva de porto seguro aos princípios progressistas e de justiça social que fizeram a América". Ora, a expressão "justiça social", no Brasil, é associada ao PT. O meu ponto é que os coxinhas brasileiros parecem ignorar que o vocabulário político brasileiro, como de qualquer nação democrática do mundo, sempre vai comportar expressões desse tipo, porque elas se referem a necessidades reais.

Nos EUA, a mídia é severamente regulamentada. Não é esta selvageria que vivemos no Brasil. O capitalista brasileiro é tão burro que não vê a importância de regulamentar a mídia para que o custo de publicidade seja menor?

A audiência nacional dos canais de tv nos EUA tem um teto máximo de 39% estabelecido por lei. Ora, a Globo atravessou as últimas décadas com audiências muito superiores a esta, em especial no horário nobre. O Jornal Nacional até hoje tem audiências maiores. Um candidato presidencial brasileiro, que pretenda realmente fazer política, tinha que trazer esses dados para a campanha! E dizer que há, sim, forma de superarmos o atraso econômico e político do Brasil em relação aos países desenvolvidos, mas que, antes, é preciso termos consciência e a informação sobre o nosso atraso. Os dirigentes da esquerda falam em regulamentação da mídia sem a mínima preocupação em apresentar dados concretos sobre a mídia no mundo democrático, e com isso o seu discurso nunca foi eficaz e nunca obteve nenhum resultado. Ao contrário, o discurso pela democratização da mídia sempre soou, aos ouvidos de boa parte da opinião pública, como uma maneira de criticar o mensageiro, e não a mensagem, e como uma forma de fugir às críticas da imprensa. Com isso, os próprios dirigentes da esquerda desmoralizaram o discurso pela democratização da mídia. Ou então, como Dilma e seus ministros fizeram, criou-se um silêncio envergonhado e covarde diante do problema central da política brasileira.

A mídia, naturalmente, surfou tranquilamente na onda da incompetência, oportunismo, covardia e preguiça da esquerda.

Nunca advoguei que um dirigente político de esquerda deixasse de dar entrevista aos grandes meios de comunicação. O que eu sempre achei um absurdo é que eles não articulasse, assertivamente, para dar entrevistas também para meios alternativos. Com isso, ele atingiria públicos diversos e ajudaria a imprensa alternativa a se tornar mais forte. Dilma nunca teve a coragem de pronunciar a palavra "blog" num discurso ou num debate. Quem a pronunciou foi Aécio, num dos debates na TV, para xingá-los, obviamente, o que mostra que o PSDB respeitava mais os blogs, embora às avessas, do que o PT. As entrevistas que Dilma deu aos blogs foram incrivelmente mal organizadas, juntando nã0-jornalistas e jornalistas, sem nenhum tipo de conversa ou articulação para permitir uma fluidez melhor da conversa.  E mesmo assim, logo após as entrevistas aos blogs, Dilma disparava nas pesquisas. Assim como Lula. A primeira entrevista que Lula deu aos blogs após sair do governo, gerou uma repercussão que eu jamais vi em nenhuma outra entrevista concedida pelo presidente, mesmo também tendo sido tremendamente mal organizada.

Os governos petistas, ao contrário da lenda coxinha, e das mentiras da mídia, que tentam vender a narrativa de que imprensa alternativa e blogs viviam de "dinheiro público", portaram-se exatamente ao contrário. Carta Capital, Caros Amigos, Brasil de Fato, blogs, foram discriminados pelo governo. Nos últimos meses da administração Dilma, o governo, pressionado pela própria audiência monstruosa de alguns blogs, abriu exceções. Mas foram migalhas, que não mudaram nenhuma realidade. Foi a primeira vez, depois de 13 anos de governos petistas, que o Cafezinho, por exemplo, começou a receber publicidade  de estatais. E o que fez a mídia? Começou a soltar reportagens, repetidamente, enfatizando não os milhões que ela mesmo recebia, mas os 0,06% das verbas da Secom que iam para a imprensa alternativa.

Estranhamente, a mídia parou completamente, nos últimos tempos, de produzir reportagens sobre as verbas da Secom. Alguns de seus colunistas, como Elio Gaspari, entre outros, são suficientemente cínicos para escrever artigos criticando as despesas de propaganda federal em meio à crise, e ao mesmo tempo omitindo que essas despesas pagam seus próprios salários, e que os próprios jornais onde eles trabalharam fizeram campanha covarde para que o governo promovesse discriminação ideológica da publicidade pública.

O Judiciário, cúmplice do golpe, parece não ligar para o fato da publicidade estatal degenerar cada vez mais em propaganda partidária barata. Mas como o Judiciário fará alguma coisa se o próprio Supremo, se o próprio Tribunal Superior Eleitoral, revela o mais profundo desprezo contra qualquer manifestação de opinião pública que não seja um editorial da Globo lido por William Bonner, como fica claro com a viagem de Gilmar Mendes no avião presidencial?

Philip Dick vivia numa democracia vibrante, apesar das tensões terríveis que caracterizavam os EUA dos anos 60, e produziu uma história sinistra, na qual o seu país era dominado por nazistas sanguinários, tanto japoneses como alemães.  O narrador sugere, contudo, que existam realidades paralelas, onde os nazistas foram efetivamente derrotados.

Aqui no Brasil, nossa situação é inversa. Vivemos um regime autoritário, onde os juízes tomaram o lugar dos militares e passaram a reger ou autorizar, em todo país, violências policiais ou de procuradores, contra cidadãos e empresas. Será que tudo isso é um pesadelo? Será que o Brasil vai acordar e descobrir que não houve golpe, que a Lava Jato não aconteceu, que as grandes empresas e a Petrobrás seguem firmes, tocando as obras de infra-estrutura de que o país precisa, que a luta contra a corrupção segue, mas de maneira discreta, prudente, constitucional?

O capitalismo brasileiro, sem informação, intoxicado por uma mídia ideologicamente insana, deu um tiro na própria cabeça.

O Brasil agora precisa respirar fundo e acordar desse pesadelo. Prefeitos, governadores, autoridades desse país, devem entender que a entrega de patrimônio e obras de infra-estrutura para empresas estrangeiras gera menos arrecadação fiscal, e, portanto, apenas irá acentuar a crise brasileira.

Para sair da crise, o governo precisa ampliar a cobertura social, elevar os gastos com educação e saúde, aumentar brutalmente os investimentos em infra-estrutura. Para fazer isso, precisa assumir o controle do país, sobretudo das áreas estratégicas.

Mas essa é a tragédia de termos um governo golpista. Ele não dialoga mais com a sociedade. Não respeita ninguém nem é mais respeitado por ninguém. Seu único diálogo parece ser com meia dúzia de nababos da Fiesp e donos da grande mídia.

Os ministros da Cultura, da Educação, da Saúde, dos governos eleitos, participavam de congressos e eventos de seus respectivos setores e dialogavam. Hoje, não.

O golpe, resultado de uma ação consertada entre Lava Jato e Globo, destruiu o Brasil. De um dia para o outro, deixamos de ser uma nação com baixo desemprego, dívida declinante, inflação controlada, altos investimentos em infra-estrutura e educação, para sermos um país devastado, sem futuro, sem esperança.

Eu quero saber como é possível que a nação continue a pagar salários para procuradores e juízes, com as contas quebradas. A primeira saída da crise deveria ser cortar drasticamente todas as regalias das castas. Cortar tudo! Auxílio paletó, passagens, auxílio-moradia, auxílio-colégio, carros, secretárias. Além de cortar tudo, era preciso reduzir os salários para um terço do que eles ganham. A mídia brasileira nunca fez uma campanha nacional, usando suas rádios, revistas, jornais e tvs, para mostrar como é nos EUA, Alemanha, Japão, onde a diferença entre o que ganha um alto funcionário público e o salário médio nacional é mínima. A mídia brasileira, por isso mesmo, é mentirosa e culpada por tudo que está acontecendo, porque sem informação não podemos lutar contra os arbítrios e entraves que atrasam o nosso desenvolvimento.

Rola um boato agora, por exemplo, que o governo do Estado do Rio quer acabar com a UERJ. Ora, isso dá vontade chorar! Quer dizer, que o Estado prefere bancar as regalias do judiciário, do Ministério Público, do que bancar educação e pesquisa, fatores obviamente estratégicos para o desenvolvimento econômico do Rio no médio e longo prazo?


Um dia, acordaremos desse pesadelo, e entenderemos que o fascismo midiático não interessa a ninguém. O Brasil, para seguir adiante, precisa democratizar a mídia, o judiciário, o tribunal de contas, o ministério público. Não foram necessários nem seis meses para mostrar que essa ditadura que vivemos hoje, esse regime de mandarins da mídia e do serviço público, precisa ser derrubado urgentemente!